Parque dos tecidos - Astrid Cabral

Astrid Cabral - poeta contemporânea do final do século XX
Astrid Cabral



Pelo balcão da loja de tecidos
ao feroz fio da tesoura
entre talhos e pilhas de retalhos
loteiam-se pomares e jardins
de bailarinas borboletas.
Sobre o limpo chão dos panos
(em lotes bem-comportados
ou despencados feito cachoeiras):
pencas de samambaias e avencas
ventanias e tufões de folhas
cestas de sanguíneos morangos
ramos de dramáticas rosas
tufos de alegres gerânios.
Ali na feira têxtil, mulheres
negociam por metro no varejo
o esplendor da primavera
e a fartura do outono.
Compram com a fome do belo
nos olhos, não mais aos quilos,
peras, maçãs, romãs, figos
ramalhetes de cravos e violetas ...
E como se fora pouco
apropriarem-se de matas, cascatas
do próprio arco-íris da flora,
lançam-se também à conquista
do azul que ninguém alcança
porém, no cetim ali, tão à mão.
(Nessas fazendas pequenas
plantam sementes de ilusão.)




Fonte: "Intramuros", Editora Valer, 2011.
Originalmente publicado em: "Intramuros", Secretaria de Estado da Cultura do Paraná, 2011.