Emílio Moura
Quem trouxe tanta névoa para o frio
desta noite? Quem cala? Quem murmura
coisas ligadas à aflição mais dura:
morte, exílio, remorsos, desvario?
Frígido, o vento; a vida, por um fio.
Que espectro chama? Que alma nos procura?
Sinto-te, tempo: sinto-te, arrepio
brusco de tudo. Que aura de loucura!
Anjos revoando, espectros em parada,
ecos de lutas, cicatrizes, tantas,
tempo e silêncio, mortos, de mãos dadas.
Céu de cinzas. Que céus! Vistes o inferno.
Não ouvis? É de mártires e amantes,
débil suspiro, mas suspiro eterno.
Fonte: "Itinerário poético", Editora UFMG, 2002.
Originalmente publicado em: "Itinerário poético", 1969.
