Onde reinavam as sombras - Astrid Cabral

Astrid Cabral - poeta contemporânea do final do século XX
Astrid Cabral



Eram noites consteladas
de astros e de medos
cismas sussurros segredos.
Quintais onde reinavam sombras
e aromas de goiabas e mangas.
Latadas prenhes sacudiam o ouro
de alamandas como sinos mudos.
No oitão a dama-da-noite
engalanava o jardim
com cheiro autoritário.
Grilos crivavam o silêncio
de humílimos gritos.
No forro de altas salas
morcegos rompiam o sossego
de sapos amoitados cautos
ao pé de baixos muros.
O mistério incubava-se ali
imerso em copas e esquinas
cobras pelas cacimbas,
ardor entre virilhas.
Peixe gandescurescorregadio
o rio escamas de estrelas
fluía entre braços de lodo
e cabeleiras de canarana.
Montado de canoas carregadas
de castanhas e melancias
seguia cavalo líquido sob
o sombrio arco das pontes.
De suas águas de sangue e esperma
nasciam botos que estupravam meninas
piranhas que castravam sexos inermes.

Eram noites de sentidos em alarme
de rios interiores a escorrer
aluviões de ânsias e angústias
por margens abstratas.




Fonte: "Visgo da terra", Editora Valer, 2005.
Originalmente publicado em: "Visgo da terra", Editora Valer, 2005.