O quarto em desordem - Marly de Oliveira

Marly de Oliveira - poeta da terceira geração do modernismo brasileiro
Marly de Oliveira



Tão fácil deixar o quarto assim:
lenços, roupas empilhadas,
tênis, papéis por todo lado,
os livros do colégio, um copo d’água,
mas um jeito de amar fala mais alto
e vai fazer a cama, renovando os
lençóis (é tão forte o calor) dói
a coluna, mas nem dói mais, quando
sonolenta ela entra
e sorri sonolenta, um anjo
de asas claras, pousado um momento
no meu ombro. Agora a cama está sempre
feita, o armário sempre arrumado, ela
longe longe longe numa
moldura mais que perfeita e o
dia inteiro olho seu quarto, os quadros,
faz tanta falta aquela desordem!
ela está lá e está aqui
dentro de mim para sempre,
e quando sequer falamos
ao telefone é como se nem
entre nós um oceano
houvesse, como se nem.




Fonte: "Antologia poética", Editora Nova Fronteira, 1997.
Originalmente publicado em: "Antologia poética", Editora Nova Fronteira, 1997.