Emílio Moura
Do ignoto fundo do tempo
surge de novo o menino.
Olha-me, tímido. Sério.
Não se adivinha futuro,
não se sonha no que sou.
Fito-o, longa, longamente,
sondo-lhe a face (era a minha!),
suplico-lhe que me interrogue,
com a ingênua fala que tinha
ressuscite-me, sorria.
Ah, nada! Não há magia
que lhe abra os olhos à nua
presença dele na minha.
Querer contar-lhe uma estória,
que logo há de ser a dele,
seria triste. Silêncio,
boca de cinza. E, calado,
fito-o, longa, longamente.
Quem sabe se vê que trago
as roupas que serão suas,
as rugas que serão suas?
Quem sabe se me descobre,
subtrai ao tempo palavras,
voz, ao vento, e, sopro mágico,
refaça logo o perdido,
eliminando distâncias
fundidas em tanto olvido?
E quebre esse muro duro
que nos separa? Quem sabe?
Sonho então que me descobre.
Mira-se em mim. Quem diria
que nos fundimos num todo,
o que já fomos, um dia?
Um todo. E límpido. Nada!
Acima, além, no inatingível,
seu olhar busca a distância
e vais pascendo nos ares
o seu rebanho invisível.
Fonte: "Itinerário poético", Editora UFMG, 2002.
Originalmente publicado em: "Itinerário poético", 1969.
