Emílio Moura
Sob o olhar desta tarde,
quantas horas revivem
e morrem
de uma nova agonia? Velhas feridas se abrem,
de novo somos julgados, o que era tudo some-se
e num mundo fechado outras vigílias doem.
A noite se organiza e, no entanto, ainda restam
certas luzes ao longe. Ah, como encher com elas
este ser já não-ser que se dissolve e deixa
vagos traços na tarde?
Já que as sombras chegam,
é urgente sacudir os ossos,
olhar longe o horizonte e recolher o pouco
que ainda resta a luzir. Luzir onde, em que furnas
secretas, em que vagos
roteiros já não sabidos? Oh, será preciso
encarar o vazio, ou esquecê-lo por outro
ainda maior, mais próximo? Esquecer
o perdido caminho, raros signos válidos,
e a aurora não mais factível na solidão crescente?
Um mundo de repente se fecha. Mas, agora,
outro logo desperta, mundo apenas imaginário? e nos desafia.
Imaginário e, no entanto,
tão vivo.
Fonte: "Itinerário poético", Editora UFMG, 2002.
Originalmente publicado em: "Itinerário poético", 1969.
