Emílio Moura
O que dói em tudo isso não é tanto
a rosa não ser rosa, e a estrela, estrela:
não é que haja no riso algo de pranto,
e amar a vida à força de perdê-la.
Amor - engano de um que se procura,
no que, ávido e cego, já criara,
nem é isso o que dói. Força tão pura,
amor se inventa, inventa, e já não para.
Não para. Inventa e, múltiplo, se inventa,
tanto o amado se mira e se imagina
no que é ledo inventar que se acalenta.
O que dói é a certeza de que tudo
mais se banha, se termina,
e, ao ter algo a dizer-nos, fica mudo.
Fonte: "Itinerário poético", Editora UFMG, 2002.
Originalmente publicado em: "Desaparição do mito", 1951.
