Emílio Moura
Cantos de galos de quintais de outrora
devolvem-me a mim mesmo e à madrugada.
Súbita pausa e a tarde se evapora,
ó sons, ó luz, ó ar de outra morada.
Sob o canto que estala, à alma de agora
tudo retorna, rútilo. E, do nada,
que sonho mais que sonho se elabora
e é graça de viver, multiplicada.
Este instante sou eu feito de sonho.
Sou o sonho em si mesmo. Ouço, a distância:
canto de fonte, sopro de alvoradas.
Em que desvãos do tempo me reponho?
Se estes cantos de galos vêm da infância,
que ar estremecem, de que madrugadas?
Fonte: "Itinerário poético", Editora UFMG, 2002.
Originalmente publicado em: "Habitante da tarde", 1969.
