Emílio Moura
Esquecida do tempo, a alma procura
algo que já não é, porque era tanto.
Onde amor se desfez, se ainda perdura
a luz que nos mandava e se fez pranto?
Algo vibra, de novo, algo que à pura
força de ser revela o próprio encanto,
luz que à noite mais cega mais se apura,
trêmula voz transfigurada em canto.
Voltam fluidas lembranças à retina,
cálidas formas, luzes de extra-mundo...
E à saudade de amar que a amar ensina,
a mente, não, mas a alma há de deter,
no que tem de mais límpido e profundo,
o que, embora fugaz, vive do eterno.
Fonte: "Itinerário poético", Editora UFMG, 2002.
Originalmente publicado em: "Desaparição do mito", 1951.
