Cantar do libertino - Emílio Moura

Emílio Moura - poeta da segunda geração do modernismo brasileiro
Emílio Moura



Fiquei parado na vida,
na vida que te quis dar.
Passou tempo, tanto tempo,
que ninguém pode contar.
Fiz um castelo de pedra,
fiz outro castelo no ar.
Fiz um mirante bem alto
para dele te mirar.

Pus lá dentro tanta coisa,
que ninguém sabe encontrar.
Pus uma estrela, outra estrela,
cada qual em seu lugar.
Ah! se o castelo desaba,
quanta pedra hei de quebrar.
Sulamita, vem depressa,
senão me atiro no mar.
De tanto olhar o horizonte,
sou capaz de me cegar.

Agora, sei que te espero,
como nunca hei de esperar.
Sulamita, vem depressa,
senão me atiro no mar.
Há tanto tempo te espero,
que acabo a desesperar.

Canta uma voz no deserto
uma canção de ninar.
Se a ouves, estou perdido:
é uma canção de encantar.
Por quê não vens, logo, logo?
Deixa a tenda sob o luar.
Meu rei, me ensina o segredo,
- magia de teu cantar.
Meu rei, tua harpa, que é dela,
que é da voz que ouvi chorar?

Que é da voz que era tão doce,
que ainda se escuta no ar?

Todo mundo está cantando,
só eu não posso cantar.
Sulamita, vem depressa,
o sol não há de tardar.
Já te espero desde quando,
desde quando quis amar.

Já fui rei, já fui mendigo,
já fiquei só sem chorar.
Só nunca tive comigo
tanta febre de abrasar.
Sulamita, vem depressa,
que acabo por me matar.
Não sei viver outra vida:
ninguém me quis ensinar.
Sulamita, vem depressa,
que a noite pode acabar.
Inventei tanta carícia,
que é pena desperdiçar.




Fonte: "50 poemas escolhidos pelo autor", Ministério da Educação e Cultura - Cadernos de Cultura, 1961.