Canção trôpega - Astrid Cabral

Astrid Cabral - poeta contemporânea do final do século XX
Astrid Cabral



A vida não tem volta.
Sobra o séquito de sombras
e uma canção trôpega
atravessada no peito:
espada, rubra espada
cravada de mau jeito.
Aqueles rapazes esbeltos
ai, estrangularam-se
nas gravatas da rotina.
Ai, crucificaram-se
no lenho das doenças.
Aqueles rapazes tão belos
não fazem mais acrobacias
nem discursos inflamados.
Arrastam chinelos e redes
ruminam silêncio amargo.
Um dia fui bela, filha,
digo a surpreendê-la.
Devo provar com retratos
o que tem ar de mentira.




Fonte: "Rasos d'água", Editora Valer, 2003.
Originalmente publicado em: "Rasos d'água", Editora Valer, 2003.