Emílio Moura
Diga-me: É preciso
deixar que a lembrança
da primeira estrela,
da primeira e única
aurora se esfume?
Que os olhos, atentos,
se abram, solitários,
mas lúcidos, para
tantos desafios?
Responder ao grito
que sobe do escuro,
socorrer o próximo,
pensar mil feridos,
perdoar, amar,
mesmo malamado,
mesmo desamado,
traído, odiado, contra tudo amar,
amar contra todos?
Ou é hora apenas
de ódio e revolta,
ou frio desânimo,
enquanto o que resta
(ah, resta tão pouco!)
deixa que uma bomba
resolva o que nunca se resolveria?
Fonte: "Itinerário poético", Editora UFMG, 2002.
Originalmente publicado em: "Habitante da tarde", 1969.
