Ribeirão das Conchas, minha cidade II - Dora Ferreira da Silva

Dora Ferreira da Silva - poeta contemporânea do final do século XX
Dora Ferreira da Silva



Desci a ladeira da rua principal
olhos semicerrados. Sol do meio-dia
despejava luz e sombra nas calçadas.
Não sei para onde eu ia, acho que te procurava
por toda parte e não te via.

Conchas não é passado
presente futuro.
Conchas é toda mistério:
ruas claras cemitério
Conchas é amor reencontrado
mudada a fisionomia
de outra tarde outro dia
outra noite com estrelas.

Não sei o que foi então
aquela taquicardia -
meu coração galopava
em alguma direção.
(Houve um tremor de terra
em escala bem modesta).
Era Conchas refletida
num pequeno coração?

E nós duas abraçadas
chegamos ao fim da ladeira
uma sentindo na outra
o tremor da mesma vida.




Fonte: "Poesia reunida", Topbooks Editora, 1999.
Originalmente publicado em: "Poemas da estrangeira", Editora Massao Ohno, 1996.