Retrato (do uno e do múltiplo) - Dora Ferreira da Silva

Dora Ferreira da Silva - poeta contemporânea do final do século XX
Dora Ferreira da Silva


Se digo eu
podes ser tu
ele
ela
até mesmo nós todos
e os acontecimentos.
As paisagens mostram-se outras
do que eram pela primeira vez.
A realidade?
Tem pálpebras que ao se fecharem
fazem-na sonhar
e por suas frestas
o vento o sol a luz
chuva e estrelas
se insinuam.
Também os vivos
- que todos são portentosamente vivos -
desconhecem calendários
passados presentes futuros.
Foram dados conselhos? Nenhum restou.
Só chama a voz
do centro
tão calma no limiar do ouvido em labirinto
voz que a pressa
ou a brusca intenção
jamais feriu.
Que a ouças ou não
te chama
às vezes não mais que a frouxa pressão
de uma presilha
em cabelo de mulher.
É um saber um sabor
quando nem sabias
se eras pássaro
criança ou serelepe.
O dia mostra seu perfil mais belo e se detém
quando alguém diz: - Nasceu uma rola branca.
Amas e respiras
e o não saber é o que fazes 
melodiosamente
luz iluminando sem ferir
tudo o que és
e tudo o que não és. 




Fonte: "Poesia reunida", Topbooks Editora, 1999.
Originalmente publicado em: "Poemas da estrangeira", Editora Massao Ohno, 1996.