Astrid Cabral
O dia em que o rio vier
se deitar em meu quintal
estendendo seu lençol
sobre as tábuas do soalho
não arrancarei cabelos
nem torcerei as mãos.
Quedarei firme pensando:
tardou bastante a chegar
a partida inevitável.
Por que galgar o telhado
o topo da alta mangueira
ou mesmo fechar a porta?
Permanecerei na casa
já em barco transformada
os pés afundando n'água.
O horizonte me convida
a transpassar o umbral
e trocar de morada.
Fonte: "Íntima fuligem", Editora Valer, 2017.
Originalmente publicado em: "Íntima fuligem", Editora Valer, 2017.
