Pedido de casamento - Astrid Cabral

Astrid Cabral - poeta contemporânea do final do século XX
Astrid Cabral



Em Guaramiranga
me sentia um passarinho.
Amanhecia descalça
no orvalho do jardim.
Chupava jamelão e caju
roupa manchada de nódoas.
Um dia, um senhor chegou
e amarrou seu cavalo
em árvore junto ao portão.
Me olhou, deu bom-dia
tirando o chapéu de palha.
Subiu a escada do sobrado
abriu a porta e entrou.
Não demorou muito saiu
me abanando com a mão.
Logo a dona da casa
amiga da prima da vó
me chamou pra conversar.
Sabe esse moo que acabou
de sair daqui agorinha?
Não vi moço nenhum
só um senhor de chapéu.
Então, esse mesmo, menina!
Acabou de pedir sua mão.
Gostou de você e quer casar.
(Fiquei muda tanto o susto)
Bom rapaz. Filho de fazendeiro
rico. Conheço desde pequeno.
Família boa da redondeza.

Adorava Guaramiranga:
morar entre flores e pássaros.
Mas fingindo dor de dente
voltei correndo a Fortaleza.




Fonte: "Infância em franjas", Editora KD, 2014.
Originalmente publicado em: "Infância em franjas", Editora KD, 2014.