O sangue na veia III - Marly de Oliveira

Marly de Oliveira - poeta da terceira geração do modernismo brasileiro
Marly de Oliveira



Assim o amor, o que não se dissolve:
como um cacto real, sem aspereza.

Assim o amor real é como um cacto,
o que não se dilui em farta seda,
mas se amacia em seda farta e doce,
e, não sendo água, nem sendo diluível,
é o que se toca e sente, e ver-se pode
não vendo, como aquilo que é sorvido,
e é água sem ser água e sem ser sangue;

e sem ser água tudo dessedenta,
e é quase um fogo essa água toda lenta,
água não água, essa água consistente,
a que se cristaliza numa gema,
numa gema que fosse toda quente.




Fonte: "Antologia Poética", Editora Nova Fronteira, 1997.
Originalmente publicado em: "A vida natural/ O sangue na veia", Editora Leitura S.A., 1967.