Marly de Oliveira
Quando flores e nuvens,
mosaicos de silêncio repentino,
fresco vales e montes,
onde a erva cresce e o gado se apascenta,
e o rio sua prata
oferece, gentil, à móvel brisa
de sede sossegada,
quando tudo o que tenho for lembrança,
que será do que vejo,
se a mais fiel memória transfigura
o que lembra? No entanto,
o mesmo milho crescerá no campo,
repetindo o ritual
de há milênios: as mesmas outras águas
espelharão no dorso
de vidro movediço os mesmos ramos.
Estas serão as árvores,
as verdadeiras, íntegras, antigas,
que só com o pensamento
eu não alcançarei em plenitude
de silêncio e de vida.
Pois uma coisa é ter, outra, lembrar.
Uma coisa é viver,
viver em bruto, o sol dando na pele,
o vento levantando
cortinas de esperança e esquecimento;
outra coisa é criar.
Criar quase prescinde do que existe.
O que existe é somente
um rascunho ou um ponto de partida.
Enquanto posso, vivo
a fértil realidade destes longes.
Laboriosa construo
com este mel, para os futuros sonhos,
uma outra morada.
Fonte: "Antologia Poética", Editora Nova Fronteira, 1997.
Originalmente publicado em: "A vida natural/ O sangue na veia", Editora Leitura S.A., 1967.
Fonte: "Antologia Poética", Editora Nova Fronteira, 1997.
Originalmente publicado em: "A vida natural/ O sangue na veia", Editora Leitura S.A., 1967.
