Deambular - Adriane Garcia

Adriane Garcia - poeta contemporânea do começo do século XXI
Adriane Garcia



Estou na rua
Ela agora deu pra carregar meu desespero
Como se uma esteira rolante fosse
E não é mais leve

Jesus das Missões Jogando Sementes
Me convida
Cura mais de mil problemas
E é claro que um deles eu tenho

Mas a rua não para
E eu não entro
Chama-me o letreiro luminoso azul
Pisca-pisca, Ônix, a loja de eletrônicos

Demoraram muitos dias para consertar
O controle remoto da TV
A espera do outro
Pode esperar mais um pouco

Não tomo açaí, a rua
Me chacoalha, não anda lisa
E meu estômago só está pronto
Para digerir pedra

Se um cão passa, eu atravesso
Levo meu medo para o outro lado
O cão segue com o seu
Também medo

E o homem que foi
Em algum 16o Festival de Inverno
Passa por mim e nem suspeita
Deste frio

Agora a rua, ela sempre faz isso
Assusta-me com a surpresa
Venho eu com sacolas, a senhora
Em minha direção

Com a mesma pressa, eu e ela
Lá se foram...

Sinto que me perdi, se
Ao menos eu olhasse para trás
Se eu corresse, se eu a abraçasse
Se eu a olhasse nos olhos, talvez

Talvez eu a possuísse
Se ela não me rejeitasse
Mas a rua não quer essa pausa
E continua.




Fonte: "O nome do mundo", Editora Armazém da Cultura, 2014.
Originalmente publicado em: "O nome do mundo", Editora Armazém da Cultura, 2014.