Clarividência - Astrid Cabral

Astrid Cabral - poeta contemporânea do final do século XX
Astrid Cabral



Tirei a escama do olho
e vi o gesso invisível.

Há quanto tempo andava eu
pela mesma rua do bairro
comendo na mesma mesa
falando com a mesma gente
a mesmíssima conversa?

Há quanto tempo jazia
incolor, encurralada
em calendários e horários
quando coloridas horas
prometiam mil surpresas?

Que rigidez era essa
a me entaniçar o corpo
e me reduzir o todo
a simples osso no gesso?

Vida não é movimento?
Assim, quebrei a carcaça.
Depois me soltei sem pejo
com meus cabelos ao vento.




Fonte: "Íntima fuligem", Editora Valer, 2017.
Originalmente publicado em: "Íntima fuligem", Editora Valer, 2017.