Dora Ferreira da Silva
Entardecíamos
lento
ainda era claro
o céu de primavera
Eu andava
e a floresta através de mim
se via
bela
Chovera recentemente:
em cada gota
resplandecia a mata
Em redoma de umidade
o corpo deslizava
aspirando gostos e perfumes
No corpo
a alma deslizava
em sua floresta íntima
de sentidos
Tudo era nítido
pintado sobre seda
lenta
minuciosamente:
o mundo externo
fundos sentimentos
quem sabe de onde provindos?
Traços de severidade
o essencial de uma paisagem
semitons da distância
Um ramo ferruginoso
bromélias rubras
aproximavam-se
de repente
depois fugiam
ou um passo
tudo deixava
para trás
alheado
(Alheava-se a mata?)
Eu ia devagar
pressa nenhuma
de deixar a nave
a catedral de folhas
murmurante nas águas escondidas
no pio dos pássaros
Findo o perfil severo da distância
veio a alegria
de estar misturada
a corpo tão selvagem
que tudo continha
era carícia
e nele eu me perdia
continuando a saber
no escuro
a beleza do caos ordenado
desse mundo externo ao olhar
da aparência
mas eterno
embora em fuga incessante
rolando pelo mesmo círculo
de existência e morte
(misturados aromas de vida e morte)
A vigília aguda
que se sentia e pensava
através de mim
a ambas acolhia
À sombra indiferente
eu era tudo e ninguém
e a tarde
comigo
entardecia
Um súbito ruflar de asas
escureceu o caminho à frente
e o iluminou
O dia findando
e o que eu era
abraçaram-se assustados
sem saber
se era um pássaro
ou um deus
Fonte: "Poesia reunida", Topbooks Editora, 1999.
Originalmente publicado em: "Retratos da origem", Editora Rowsitha Kempf, 1988.
