Dora Ferreira da Silva
Águas despertavam
A meu lado
inventavas o dia
nas sendas solitárias
Árvores se perdiam na neblina
e à cascata chegávamos
- a lisa pele azul do rio -
enquanto o sol fincava suas garras
de onça adolescente
na floresta
Éramos parte desse mundo que acordava
surpreso de ser tão belo
e não sabê-lo
senão na alma
aragem
que corpo era
e resplandecia
Amanhecia
éramos manhãs
e as outras manhãs
páginas da mesma estória
lida e relida
soando sempre
outra
Reinvento agora páginas
que lemos juntos
e pelo timbre
vejo que estou
só de ti
Como reinventar-te
se era eu
tua canção?
Que sol aquecerá
se éramos um só calor?
Despeço-me de tudo
a cada instante
distraída de ser
o que não és:
eu
próxima
tu
distante
Incompleta sou
querendo ouvir a música
de outrora
à sombra das árvores
pois não vens com o peso do teu corpo
O nada ecoa
Éramos alguns:
cada um
muitos
naquela vida em juventude
Éramos o delírio de ser toda a floresta
sem arrefecer
findo o delírio
Recuso-me porém
a este fim de tarde
sem a graça da misericórdia
Solúveis em mim
são estes caminhos vivos:
misturo-me a eles
ao Poema
às palavras
cálidas
pulsantes
que nos fizeram amar e rir
cessando
de repente
Senda interrompida pela chuva
Fonte: "Poesia reunida", Topbooks Editora, 1999.
Originalmente publicado em: "Retratos da origem", Editora Rowsitha Kempf, 1988.
