Balangandãs - Astrid Cabral

Astrid Cabral - poeta contemporânea do final do século XX
Astrid Cabral



Tive anelzinho de ouro
com nome gravado na chapa
(no azougue mudava de cor).
Tive anelzinho de brilhante
pra usar no dedo mindinho.
Pulseiras de pau-d'angola
com berloques e sininhos
figa de marfim da Índia
dente de onça encastoado.
Tive cordões trancelins
com santos bentos e cruzes
amuletos pra mau-olhado.
Argolinhas de prata brincos
pérolas gotas dançantes
montadas em marcassita.
Tive muitas medalhas
por prêmios escolares.
Colares de rosas saxe
e de miúdas madrepérolas.
Um relógio Longines pra
nunca mais me atrasar...
Perdi os balangandãs
todos sem sequer me dar
conta e sem chorar nenhum.
Não soube cuidar. Não aprendi
a guardá-los fora da lembrança.




Fonte: "Infância em franjas", Editora KD, 2014.
Originalmente publicado em: "Infância em franjas", Editora KD, 2014.