Marly de Oliveira
As flores vagarosas
que revelam? Que vejo na linguagem
muda de cada coisa,
que não seja um reflexo de mim mesma?
A linguagem da flor é a forma viva
que na terra procura
toda a seiva que anima a graça aérea
do talo e de suas pétalas.
Tudo o mais é um acréscimo ao que é.
E tudo o que não é
é uma forma irreal de ver o real,
vendo o que não existe no que existe.
Sou eu, além de mim,
compensando esta humana insuficiência
de ser e me saber,
próxima e inatingível, precisando
cada vez mais de tudo;
fazendo o grande esforço de me abrir,
com aquele cuidado vagaroso
com que se desenrola
um tapete encostado há muito tempo.
Minha alma empoeirada,
quem sabe isso a que chamo precisar
é apenas movimento
para fora? de quem sai de um casulo
e com doçura aos poucos se transforma,
e se acostuma à luz,
que ainda é mais luz porque lhe não é própria.
Fonte: "Contato", Editora Imago, 1975.
Originalmente publicado em: "A vida natural/ O sangue na veia", Editora Leitura S.A., 1967.
Fonte: "Contato", Editora Imago, 1975.
Originalmente publicado em: "A vida natural/ O sangue na veia", Editora Leitura S.A., 1967.
