A vida natural XXIV - Marly de Oliveira

Marly de Oliveira - poeta da terceira geração do modernismo brasileiro
Marly de Oliveira



As flores vagarosas
que revelam? Que vejo na linguagem
muda de cada coisa,
que não seja um reflexo de mim mesma?
A linguagem da flor é a forma viva
que na terra procura
toda a seiva que anima a graça aérea

do talo e de suas pétalas.
Tudo o mais é um acréscimo ao que é.
E tudo o que não é
é uma forma irreal de ver o real,
vendo o que não existe no que existe.
Sou eu, além de mim,
compensando esta humana insuficiência

de ser e me saber,
próxima e inatingível, precisando
cada vez mais de tudo;
fazendo o grande esforço de me abrir,
com aquele cuidado vagaroso
com que se desenrola
um tapete encostado há muito tempo.

Minha alma empoeirada,
quem sabe isso a que chamo precisar
é apenas movimento
para fora? de quem sai de um casulo
e com doçura aos poucos se transforma,
e se acostuma à luz,
que ainda é mais luz porque lhe não é própria.




Fonte: "Contato", Editora Imago, 1975.
Originalmente publicado em: "A vida natural/ O sangue na veia", Editora Leitura S.A., 1967.