A vida natural IV - Marly de Oliveira

Marly de Oliveira - poeta da terceira geração do modernismo brasileiro
Marly de Oliveira



As coisas se renovam,
a natureza vive
num contínuo mudar-se a cada dia,
numa renovação que nem espanta,
uma alcançável, nítida alegria,
que é também ignorância.
As coisas só se medem pelo vivo

da coisa. As estações
que podem contra elas?
A primavera é apenas ocasião
de se manifestar a natural
alegria que têm, as descuidadas.
Alegria que fica,
sob o manto do inverno, intacta e viva.

Não lhes altera o outono
a essência do que são.
Se cai a folha e secam as ervinhas,
outras mais verdes vêm, que as substituem.
A ave que canta é a mesma que há milênios
idêntico cristal
entregava sonoro ao mesmo vento.

Que líquido entregava,
as águas engrossando
do ar que não muda, embora mude sempre,
e traz ao meu ouvido o mesmo canto.
Ser apenas a espécie é superior
ao ser distinto dela?
Eu que ganho sabendo-me e pensando-me?

E escolhi, por acaso,
pensar ou não pensar,
sentir ou não sentir, intensamente?
Que poder me foi dado sobre mim?
Até onde vai a minha liberdade?
Tudo o que sei é menos
que uma árvore de pé, bem que pequena;

do que o milho no campo,
de flexíveis espigas.
Porque a verdade da árvore e do milho
faz-se de ser apenas o sensível
que sempre se repete aos nossos olhos,
mas a minha verdade
é algo que se acrescenta ao que já sou,

e algo que se retira,
e algo que se transforma.
O que penso que sou é tão distante
de mim quanto o que penso que não sou?
Não servirei, embora independente
de mim, a uma verdade
mais ampla que a do milho e que a de uma árvore?




Fonte: "Antologia Poética", Editora Nova Fronteira, 1997.
Originalmente publicado em: "A vida natural/ O sangue na veia", Editora Leitura S.A., 1967.