Marly de Oliveira
Mas será mesmo a vida?
Ou quem sabe se iludem meus sentidos,
e o que vive não vive,
pois não sabe que vive,
e na seiva das plantas, invisível,
e nas veias dos bichos,
há um puro ardor que acaba em nada um dia?
O sonho de ser vivo,
com que torno maior
a diminuta vida de meu sangue,
ampliada no que existe.
Como a abelha é maior porque precisa
da flor e de seu néctar,
e de seu néctar vivo,
além de precisar de uma outra abelha.
Além de respirar,
o que vive precisa do que vive,
pois como estar à altura
do que vive o que é morto,
se viver é também alimentar-se
o igual de seu igual,
o igual de seu análogo e seu símbolo,
o igual de seu diverso,
e seu oposto às vezes,
mas sempre tendo a fome por medida?
o que é vivo precisa
do que é vivo e animado por si mesmo,
e cumpre o que está vivo
uma finalidade,
embora se não saiba bem qual seja.
Fonte: "Antologia Poética", Editora Nova Fronteira, 1997.
Originalmente publicado em: "A vida natural/ O sangue na veia", Editora Leitura S.A., 1967.
Fonte: "Antologia Poética", Editora Nova Fronteira, 1997.
Originalmente publicado em: "A vida natural/ O sangue na veia", Editora Leitura S.A., 1967.
