Marly de Oliveira
Mais que estes leques
de plumas suaves
que agita um vento
que não se vê,
mas baila e canta,
sinto que a vida,
mais que esta terra
e que estas flores
variadas, limpas
e tênues, sinto,
mais que estes ares,
sinto que a vida,
a vida é,
corre nas veias
como nos rios,
na seiva bruta,
no bicho quente,
no miúdo peixe,
em qualquer alga
macia e fria,
e não separa
gente de bicho,
só unifica,
na indiferença
mesma que anima
o que se move
ou não se move.
A vida é,
como a medula
de qualquer planta,
como o silêncio
que há numa gema,
como o escorrer
do todo rio
é puro e certo
e intransponível.
Tudo independe
de mim, de ti,
do que é vontade
simples e humana,
e tudo é grande,
claro, perfeito.
Só me limita
a consciência
de ser quem sou,
de me saber
e me pensar
junto e diversa
de tudo isso
que apenas vive
na sua glória,
na sua grandeza
inconsciente
e harmoniosa.
Fonte: "Antologia Poética", Editora Nova Fronteira, 1997.
Originalmente publicado em: "A vida natural/ O sangue na veia", Editora Leitura S.A., 1967.
