A vida natural VII - Marly de Oliveira

Marly de Oliveira - poeta da terceira geração do modernismo brasileiro
Marly de Oliveira



É bom que as coisas nunca se interrompam,
que cumpram com cuidado a própria espécie,
que inverno e primavera
sequer as modifiquem.

Apenas na aparência se transformam,
expandindo-se em cores luminosas,
ou secas retraindo-se,
como a noite no estio.

É belo e natural que seja assim,
embora o não entenda.
Sou excessivamente individual
para atingir o veio
de uma tão grande ausência de mistério.

Encompridam-se os dias,
as árvores se enfolham,
caprichosas as flores pelos campos
abrem-se ou não, e o gado muge.

Mas se não têm consciência
árvores, flores, bichos,
alguém na certa a tem por todos eles,
que não distingo apenas com os sentidos?





Fonte: "Contato", Editora Imago, 1975.
Originalmente publicado em: "A vida natural/ O sangue na veia", Editora Leitura S.A., 1967.