Marly de Oliveira
Sob o cair das folhas, neste outono,
seu prodígio de gemas deita ao frio
a primavera, e o frio
cede ao raro esplendor, à intensa festa,
e em mim, que a estou gerando,
num primeiro passivo e suave sono,
a mais completa
forma de estar-se unido
ao que vive e ao que é sob este frio
que o tempo vai deitando
tranquilo, em finas cores, sobre o campo;
não sobre mim, pois ardo
naquele fogo casto
que a mais espessa neve abrandaria,
e a noite em claro dia
transforma, e à cabeceira faz voltarem
as águas, noutro ritmo de amar
que busca o início,
ilusão de infinito
que há no desdobramento sem esforço
do tempo noutros tempos, generoso;
em jardins de uma viva pedraria,
onde a excessiva luz ilude a firme
aparência das coisas,
e tudo se unifica e multiplica
nesse mover-se imóvel,
sobre si mesmo, do enevoado dia.
O paraíso é a minha escolha antiga,
mas por estranha via
que não exclui do gozo o sofrimento,
e as visões deleitosas
de outros mundos etéreos não separa
das visões suscitadas
pelas águas estígias,
e une o frio ao calor, a morte à vida,
em tão fino tecido
que por mais que se esforce não alcança
a mente desfazê-lo, na esperança
de recompô-lo um dia;
o que arde e o que não arde,
o amor e o não-amor estão unidos,
e aquilo que me escapa é que é o sentido.
Fonte: "Contato", Editora Imago, 1975.
Originalmente publicado em: "A vida natural/ O sangue na veia", Editora Leitura S.A., 1967.
Originalmente publicado em: "A vida natural/ O sangue na veia", Editora Leitura S.A., 1967.
