Marly de Oliveira
Diante desta paisagem,
aquecida de um sol ainda mais quente
do que o sol que se vê,
me esforço no exercício de manter
desperta a minha fome,
a fim de que o que é vivo continue
(enquanto pode) vivo.
Desperta, insaciável e inextinguível
a fúria de comer.
Ah, janelas de vidro que me sou,
pudesse eu retirá-las,
e olhar as coisas corpo a corpo, assim
como um inseto pousa
e sorve a luz da flor mais delicada.
Uma abelha real
sobre uma flor real, que permanece
flor, apesar da abelha
e do mel que se faz, e que outro bebe.
A fome que revela
minha grande carência despojada
de todo falso ornato.
Fonte: "Contato", Editora Imago, 1975.
Originalmente publicado em: "A vida natural/ O sangue na veia", Editora Leitura S.A., 1967.
Originalmente publicado em: "A vida natural/ O sangue na veia", Editora Leitura S.A., 1967.
