A vida natural XI - Marly de Oliveira

Marly de Oliveira - poeta da terceira geração do modernismo brasileiro
Marly de Oliveira



Volta-me, agora, um tempo que não tive,
infância não vivida,
tantas vezes pensada e repensada,
e dá-me uma alegria que refaz,
sonora como fonte,
dentro da paz, a paz que não havia,
dentro do amor, o amor.
O tempo me devolve uma estação
que, se não conheci, eu reconheço
por aquela medida
que é a falta de medida na expressão.
As coisas estão vivas,
e a minha vida absorve
a água que alisa o seixo, o grão que sobe
- vertiginosa espiga -
e a vida que há na vida do que vive.

Sou aquilo que fui sem o ter sido.
O quarto em que vivi,
em abstrações e sonhos mergulhada,
se amplia neste campo sem paredes,
onde o que vive, vive,
e onde, sem ter estado, eu sempre estive.
Entra-me pelos olhos
o que só pelo sonho antes entrava:
a impenetrável, viva realidade
do silêncio das coisas.
O entardecer uníssono, o repouso,
onde, com a noite, leva?
Ainda mais calmas que esta,
que paisagens noturnas se preparam
pela invisível mão
da noite sossegada?

Quem me toma de mim, quem me levanta
na sombra nemorosa,
deixando refletida a minha imagem
onde pareço estar, fiando o linho
de uma noite sem sono?
Rude fiando a tela do que sinto
e quase não alcanço,
pois sou o que não sou, mas que é em mim.
Volto ao que flui, sem o ter sido embora,
e assim como a manhã
se desprende da noite, inexplicada,
eu ganho, de repente,
um futuro e um passado:
um passado que é feito de um presente,
de um voltar só com o sonho
onde a memória nunca acertaria.




Fonte: "Contato", Editora Imago, 1975.
Originalmente publicado em: "A vida natural/ O sangue na veia", Editora Leitura S.A., 1967.