Cantos I - Dora Ferreira da Silva
Poema de Dora Ferreira da Silva
Vim rolando nas águas como pedra solta
os olhos sofridos de tantas madrugadas
vim sem-sentido como um colar desfeito
as mãos partidas, frouxas, caladas
flutuando em cega sobrevivência.
(Que ausência de corpo no meu corpo
cinza e degredo
que ausência de alma na minha alma
fogo e segredo)
Vim no colo das águas nua e humana
trazendo lírios enleados nos cabelos
lírios brancos da margem abandonada
vim tecendo silêncios como folhas
caídas na sombra, tangidas no vento
vim presa à angústia morna e taciturna
do sono dos pássaros ao crepúsculo.
(Que ausência de corpo no meu corpo
cinza e degredo
que ausência de alma na minha alma
fogo e segredo)
Da margem deixada murcharam as flores
já nada me resta da dor encontrada
vesti-me de Nada e o humano perdeu-se
e o nome esvaiu-se na face alheada
ganhar ou perder é um eco morrendo
de jogo esquecido da infância lembrada.
Os lírios murcharam e a magnólia surgiu.
Fonte: "Poesia reunida", Topbooks Editora, 1999.
Originalmente publicado em: "Andanças", Edição da Autora, 1970.
