Quem sou eu? - Ferreira Gullar

Ferreira Gullar - poeta da terceira geração do modernismo brasileiro

Poema de Ferreira Gullar



Quem sou eu dentro da minha boca?
Quem sou eu nos meus dentes
detrás dos dentes
        na língua que se move
presa no fundo da garganta? que nome tenho
na escuridão do esôfago?
        no estômago
        na química
        dos intestinos?

        Quem em mim secreta
        saliva? excreta
        fezes?
                quem embranquece em meus cabelos
                e vira pus nas gengivas?

Quem sou eu
        ao lado da Biblioteca Nacional
        tão frágil, meu deus, na noite
        sob as estrelas?
        e no entanto impávido!
        (a mexer no armário de roupas
        num apartamento da Rua Tenente Possolo
        em 1952
        vivo a história do homem).

J’irai sous la terre
et toi, tu marcheras dans le soleil.

Tudo o que sobrará de mim
é papel impresso.
Com um pouco de manhã
engastado nas sílabas, é certo, mas
que é isso
em comparação com meu corpo real? meu
corpo
onde a alegria é possível
se mãos lhe tocam os pelos
se uma boca o beija
                        o saliva
o chupa com dois olhos brilhantes?
                            E sou então
                            praia vento floresta
                            resposta sem pergunta
                            o eixo do corpo
                            na saliva dourada
                                                    giro
e giramos
com o verão que se estende por todo o hemisfério sul.

                Como dizer então: pouco
                me importa a morte?
E sobretudo se existem as histórias em quadrinhos
e os programas de televisão
que continuarão a passar noite após noite
no recesso dos lares
                numa terça-feira que antecede à quarta
                numa quinta-feira que antecede à sexta
                ou num sábado
                ou num domingo.
                                        Como dizer
                                        pouco me importa?




Fonte: "Coleção Melhores Poemas", Editora Leya, 2012.
Originalmente publicado em: "Barulhos", 1987.