sexta-feira da paixão

Imagem de Ana Cristina Cesar

Poema de Ana Cristina César



Alguns estão dormindo de tarde,
outros subiram para Petrópolis como meninos tristes.
Vou bater à porta do meu amigo,
que tem uma pequena mulher que sorri muito e fala pouco,
como uma japonesa.
Chego meio prosa, sombras no rosto.
Não tenho muitas palavras como pensei.
“Coisa ínfima, quero ficar perto de ti.”
Te levo para a avenida Atlântica beber de tarde e digo: está lindo,
mas não sei ser engraçada.
“A crueldade é seu diadema...”
O meu embaraço te deseja, quem não vê?
Consolatriz cheia das vontades.
Caixa de areia com estrelas de papel.
Balanço, muito devagar.
Olhos desencontrados: e se eu te disser, te adoro,
     e te raptar não sei como dessa aflição de março,
     bem que aproveitando maus bocados para sair do
     esconderijo num relance?
Conheces a cabra-cega dos corações miseráveis?
Beware: esta compaixão é
é paixão.



Fonte: "Poética", editora Companhia das Letras, 2013.
Originalmente publicado em: "A Teus Pés", editora Brasiliense, 1982.

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