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Poema de Fernando Pessoa



O que há em mim é sobretudo cansaço -
Não disto ou daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo.
Cansaço.

A sutileza das sensações inúteis.
As paixões violentas por coisa nenhuma.
Os amores intensos por o suposto em alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que falta nelas eternamente -
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimo, íssimo, íssimo,
Cansa



Fonte: 'Obra Poética', décima edição, Editora Nova Fronteira, 2001.

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