O dom de fingir

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Poema de crroma



O homem branco da porta branca
sabe-se fingimentos.

Faz humor, faz piada de tudo
o homem branco da porta branca.
Não vê consequências ao humor
a não ser render-lhe dinheiro e fama.

E finge não desfrutar de privilégios
quando faz rir de outros.
Finge a suspensão de preconceitos
em um mundo alvo cegante.

O homem branco da porta branca finge
que a desigualdade está somente do lado de fora,
exibindo-se despudoradamente debaixo dos viadutos.
A desigualdade não é ele, respira ele,
brilha em sua dentição tratada,
transpira ele, pensa ele em sapatos,
funde-se nele enfim
como em todo aquele que se diz
brasileiro.

As mãos (fofos algodões),
os dedos filamentosos do homem
branco da porta branca
amassam discricionariamente a matéria da vida.
Para extrair da condição humana gargalhadas,
para extrair de tudo, ainda que da cor da pele,
da pobreza e do gênero, do sobrepeso,
do sexo, de limitações motoras etc etc. 

Fingindo que, pelo humor,
nos amamos uns aos outros
enquanto se deleitam as plateias.







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