Evocação de silêncios

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Poema de Ferreira Gullar



O silêncio habitava
o corredor de entrada
de uma meia morada
na rua das Hortas

o silêncio era frio
no chão de ladrilhos
e branco de cal
nas paredes altas

enquanto lá fora
o sol escaldava

Para além da porta
na sala nos quartos
o silêncio cheirava
àquela família

e na cristaleira
(onde a luz
se excedia)
cintilava extremo

quase se partia

Mas era macio
nas folhas caladas
do quintal
        vazio

e
negro
(o silêncio)
no poço
negro

que tudo sugava:
vozes luzes
tatalar de asa
o que
circulava
no quintal da casa

O mesmo silêncio
voava em zoada
nas copas
nas palmas
por sobre telhados
até uma caldeira
que enferrujava
na areia da praia
do Jenipapeiro

e ali de deitava:
uma nesga d’água

um susto no chão

fragmento talvez
da água primeira

água brasileira

Era também açúcar
o silêncio
dentro do depósito
(na quitanda
de tarde)

o cheiro
queimando sob a tampa
no escuro

energia solar
que vendíamos
aos quilos

Que rumor era
esse? barulho
que de tão oculto
só o olfato
o escuta?

que silêncio
era esse
        tão gritado
        de vozes
        (todas elas)
        queimadas
        em fogo alto?

        (na usina)

alarido
        das tardes
        das manhãs
        agora em tumulto
        dentro do açúcar
        um estampido
        (um clarão)
        se se abre a tampa



Fonte: "Coleção Melhores Poemas", Editora Leya, 2012.
Originalmente publicado em: "Barulhos", 1987.

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