Ano-novo

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Poema de Ferreira Gullar



Meia-noite. Fim
de um ano, início
de outro. Olho o céu:
nenhum indício.

Olho o céu:
o abismo vence o
olhar. O mesmo
espantoso silêncio
da Via Láctea feito
um ectoplasma
sobre a minha cabeça:
nada ali indica
que um ano-novo começa.

E não começa
nem no céu nem no chão
do planeta:
começa no coração.

Começa como a esperança
de vida melhor
que entre os astros
não se escuta
nem se vê
nem pode haver:
que isso é coisa de homem
esse bicho
            estelar
            que sonha
            (e luta).


Fonte: "Coleção Melhores Poemas", Editora Leya, 2012.
Originalmente publicado em: "Barulhos", 1987.

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