Praça da luz - Cacaso

Cacaso (Antônio Carlos de Brito)



O inverno escreve em maiúscula
sua barriga circense.
Namorados sem ritmo povoam o espaço
onde gengivas conspiram e chefes de família
promovem abafadas transações.
Um marreco aproveita a audiência
e se candidata a senador. Anjinhos
cacheados esvoaçam flâmulas
e hemorroidas, corpos horrendos se tocam.
Uma gargalhada despenca do cabide:
                                        marcial
um cortejo de estátuas inaugura
o espantoso baile dos seres.




Fonte: "Poesia completa", editora Companhia das Letras, 2020.
Originalmente publicado em: "Grupo escolar", Coleção Frenesi, 1974.