Emílio Moura
Esquivo encontro de rua,
risco no ar, clarão, relâmpago.
Que é do morto que jazia
sob o musgo, sob a pedra,
sob milênios erguidos
com febre, torpor e lágrima?
Que é do morto que morria
a cada visão distante,
a cada novo crepúsculo?
Não houve morte. Não há.
Há febre, torpor e lágrima;
há o dia fixo, o degredo,
o signo que não se entende,
o sol, o pântano mudo,
a rosa cortada no ar.
Há a vida secreta, hermética,
o olhar que se abre - é de vidro,
a flor que brilha - é de pobre
matéria plástica; há a aurora
que se acalenta - é reflexo
de esquiva luz, já se foi.
Com que força, com que ímpeto,
o morto vivo caminha!
Fonte: "Itinerário poético", Editora UFMG, 2002.
Originalmente publicado em: "O instante e o eterno", Edições Hipocampo, 1953.
Fonte: "Itinerário poético", Editora UFMG, 2002.
Originalmente publicado em: "O instante e o eterno", Edições Hipocampo, 1953.
