Agora é tarde - Emílio Moura

Emílio Moura - poeta da segunda geração do modernismo brasileiro
Emílio Moura



De tudo o que não fomos fica a essência
de algo que ascende à luz em que te perdes.
O dom que em mim renasce e em mim transforma
a dor em canto, o puro amor em mito.

Agora é tarde. Entrego-me à perdida
face de tudo. Nela é que existimos:
nervos, sangue, fervor, deslumbramento,
teu florir, tua máscara, teu vulto.

Fúlgida noite cai num ritmo lento.
Que ignota voz, que voz vive a chamar?
Linha que se desfaz em água e vento,
múrmura fonte, a vida morre no ar.




Fonte: "Itinerário poético", Editora UFMG, 2002.
Originalmente publicado em: "Itinerário poético", 1969.