Emílio Moura
Sombra do tempo, alma do tempo, rio,
turvo rio do tempo. Asas fugindo,
tardes descendo e, frígido arrepio,
a sombra: a sombra obscura sobre o rio.
Partir, chegar. Sentir entre o apagado
sopro da vida e a morte, a nosso lado,
o tempo, ausente, o espaço ilimitado,
e a paisagem sonhando um grande sonho.
A alma estende o seu vôo além das coisas.
A sombra desce, envolve-te. Nem ousas
pensar. Mas, em seu pélago profundo,
talvez o ser, em seu não-ser perdido,
dê forma, ritmo, luz, alma, sentido
a algo que anule a solidão do mundo.
Fonte: "Itinerário poético", Editora UFMG, 2002.
Originalmente publicado em: "Itinerário poético", 1969.
