A pedra do Rio Verde - Astrid Cabral

Astrid Cabral - poeta contemporânea do final do século XX
Astrid Cabral



A pedra do Rio Verde
gera um rio em minha casa
fluindo subterrâneo
sob o tapete da sala.
A pedra do Rio Verde
zomba das seis torneiras
cuspindo miúdas águas
na louça dos lavabos.
A pedra do Rio Verde
ri do ínfimo território
onde presa não me espraio.
Ri das janelas fechadas
minha defesa da chuva.
A pedra do Rio Verde
tem dó dos tinhorões
ali no exílio dos vasos.
Despreza o ventilador
a miséria do seu vento.
Destrona os vários relógios
tão levianos com o tempo.
A pedra do Rio Verde
quebra a madeira das portas
e na mãe terra, de volta,
me recoloca liberta.




Fonte: "Intramuros", Editora Valer, 2011.
Originalmente publicado em: "Intramuros", Secretaria de Estado da Cultura do Paraná, 2011.